Não tem jeito: quando vejo um filme que me traz algo mais que apenas diversão, vejo-me compelido a escrever um pouco sobre o assunto.
O filme: A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, USA 2005);
O diretor: Noah Baumbach (Vida Aquática, Hamlet)
Trata-se de um drama psicológico que retrata a vida de uma família de escritores americanos e seus dois filhos: um adolescente e um pré-adolescente. Não vou fazer análise do filme que é ótimo e recomendo vivamente. O post é sobre algo que me marcou no filme.
Certa altura da fita, o pai faz um comentário sobre o novo namorado da ex-esposa:
"Não creio que seja nada sério. Ivan é um filisteu."
"O que é um filisteu, pai?"
"É uma pessoa que não gosta de bons livros e filmes interessantes."
Foi exatamente este momento do filme que me pegou desprevenido.
Filisteus são tratados na bíblia com sendo um povo bárbaro. O dicionário também não foi muito gentil com esse povo que se instalou na região palestina: filisteu significa brutamontes; burguês de espírito vulgar e estreito.Gostei da definição dada pelo personagem de Jeff Daniels. Fez pensar um pouco mais sobre o que alguns amigos (três, para ser mais exato) em um espaço de tempo relativamente curto comentaram comigo. Eles, em uma espécie de desabafo sobre os seus companheiros, confessaram-me sobre a dificuldade de conviver com pessoas de nível cultural menos denso do que a imensa bagagem de conhecimento que carregam no dia-a-dia. Conversar sobre certos assuntos que nos despertam interesse imediato é , na maioria das vezes, impossível. Outras vezes, sentimos que o tema é discutido superficialmente. A sensação de que falta algo a ser dito é constante.
Conversar sobre aquele livro maravilhoso que já leu e aquele filme independente é "falar grego". Recorremos aos amigos para este tipo de coisa. Porque amigos escolhemos e amores, não. A resposta que eu dei aos três: o ideal seria que pudéssemos discutir densamente sobre os últimos livros de Saramago e João Ubaldo (que, por sinal, está devendo), sobre o mais novo filme de Bertolucci ou o porquê do plebiscito na Sérvia e Montenegro. Mas "dura reale, sed reale". Não podemos exigir que as pessoas com as quais convivemos tenham o mesmo conhecimento sobre o mundo que nós temos, nem muito menos vamos azarar os membros da ABL. Devemos atentar também para o fato de que, ao olhar de outros, também possamos parecer filisteus. Faz parte de um relacionamento aprender com a (o) parceira (o). Apresentar coisas novas que não faziam parte da realidade da (o) outra (o) pode despertar o interesse para algo desconhecido. Aprendemos, sim, com os filisteus. Aprendemos coisas que podem parecer simples, mas são igualmente importantes. Relacionamento é isso: penetrar e conviver com o mundo que não é, muitas vezes, o mesmo no qual você habita. Tente. Pode ser que você goste.