terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Conto. Parte II.

Ele estava vestido com sua camiseta preta favorita e seu jeans surrado. Ela, durante muito tempo, conteve a sua vontade de agarrá-lo e levá-lo para a cama por causa do namorado. Agora, livre, ela passou a cortejá-lo e até a persegui-lo pela noite de Brasília. Tinham amigos em comum e ela não teve muito trabalho em descobrir que ele estaria no Gate’s naquela quarta-feira. Sabe que ele gosta do ambiente escuro e quase melancólico que o lugar possui. Muitos amigos dele freqüentam-o, principalmente na quarta-feira, quando o DJ só toca discos de vinil na vitrola e o público que freqüenta o lugar é mais interessante do que o da maioria dos bares da Capital Federal. A música é boa, o ambiente é bom e os amigos estão por perto. Ele não desejava muita coisa. Apenas a companhia dos frades e uma cerveja gelada.
Conversava animadamente com Batista, garçom do lugar há muito tempo. Mas do que podia lembrar. Batista tinha 56 anos e era casado com uma moça 34 anos mais nova.
-Chega de mulher bonita! Arrumei uma moça bem feia, porém novinha, sabe cozinhar e não me enche muito a paciência, disse o garçom com a firmeza que a experiência de dois casamentos anteriores construiu. - Quantos anos ela tem?
- 22.
- 22? Não é muito nova?
- Tem que ser. Ela já é feia. Imagine se fosse velha? Mulher bonita dá trabalho. Todo mundo mexe e ela fica achando que pode sempre mais do que já tem. É muito arriscado. Tem que ser feia! Ninguém mexe e ela agradece todo dia a Deus por ter encontrado alguém corajoso o suficiente para ter aceitado ela. A gente fica por cima.
- Como assim?
- Aprendi que as relações entre casados, namorados ou amantes são, na verdade, lutas veladas constantes. Ninguém quer parecer fraco diante do outro. Queremos ter sempre a impressão de que a pessoa nos idealiza, que acha que nos perder vai ser pior do que estar com a gente. Por isso nos mascaramos as nossas características mais sombrias quando acabamos de conhecer alguém. Somos outras pessoas, máscaras que fatalmente caem e revelam pessoa diferente daquela que apresentamos no início. E mulher bonita vai ter sempre muitas opções para comparar. É muito arriscado.
Ele acenou com a cabeça concordando. Na verdade não concordava, mas a última coisa que ele queria era discutir com alguém sobre relacionamentos. Aquela conversa já o distraíra demais. Queria aprecia a música. De repente, um verso da canção "Deixe a Menina" de Chico Buarque surgiu na sua mente agitada por três long necks: "Atrás de um homem triste há sempre uma mulher feliz. Atrás dessa mulher mil homens sempre tão gentis. Por isso, para o seu bem, ou tira ela da cabeça ou mereça a moça que você tem."Gostava de Chico. Considerava-o um gênio. Teve que concordar com o amigo garçom.

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