- Pai, eu preciso saber o que você quer.
A comida do filho já havia chegado e ele ainda estava tomando a água com gás e limão. Nem gosta de água com gás, mas era a única coisa que ela tomava - fora a taça de vinho em ocasiões especiais - quando saiam para jantar. Beber aquela coisa amarga e sem graça não agradava ao seu paladar e fazia doer seu estômago. A gastrite o atacou novamente. Dessa vez pior: vomitou sangue por duas vezes na noite anterior, não conseguiu dormir. Nem com dois comprimidos de algum remédio tarja preta que encontrou no banheiro. Também não sentia fome, sede ou qualquer necessidade física. O vazio que sentia refletia-se no estado letárgico em que seu corpo colocara-se nas últimas quarenta e oito horas. Finalmente falou:
- Eu quero ela de volta.
-Tarde demais para isso.
A comida do filho já havia chegado e ele ainda estava tomando a água com gás e limão. Nem gosta de água com gás, mas era a única coisa que ela tomava - fora a taça de vinho em ocasiões especiais - quando saiam para jantar. Beber aquela coisa amarga e sem graça não agradava ao seu paladar e fazia doer seu estômago. A gastrite o atacou novamente. Dessa vez pior: vomitou sangue por duas vezes na noite anterior, não conseguiu dormir. Nem com dois comprimidos de algum remédio tarja preta que encontrou no banheiro. Também não sentia fome, sede ou qualquer necessidade física. O vazio que sentia refletia-se no estado letárgico em que seu corpo colocara-se nas últimas quarenta e oito horas. Finalmente falou:
- Eu quero ela de volta.
-Tarde demais para isso.
O filho tinha razão. Ela estava morta. Câncer. Consumiu o corpo dela mais rápido do que ele pode dizer o quanto os quarenta anos juntos significou para ele. Sentia raiva por não ter tempo de deixar bem claro o que sentia. No início, achou que seria mais difícil e doloroso para ela dizer que acreditava que as séries de eventos que fizeram com que se conhecessem não foram coincidência, foram divinos; que todos os devaneios e descaminhos da vida dos dois eram trilhas feitas para que se encontrassem; que a amava com uma imensidão oceânica; que ainda lembrava da noite em que se conheceram por intermédio de uma amiga em comum e da primeira fez em que se tocaram quando a chamou para dançar naquela noite; que ainda lembra de que sentiu quando a beijou pela primeira vez e qual a música que tocava no show de jazz que foram juntos dois dias depois; que a levou para a estréia de “Ontem, hoje e amanhã”, de Vittorio de Sicca. A primeira vez que foram ao cinema. Teve medo de que ela dissesse que toda a aquela baboseira sentimental só estava sendo dita por que ela estava morrendo; que o que realmente importava era a família que criaram juntos e toda a cumplicidade enraizada nas décadas de convivência. Ela sempre foi racional e eu, emoção, pensava. Quis, também, dizer-lhe que se sentia um idiota por todas as vezes que brigou com ela; por todas as vezes que, movido por sua frágil capacidade de argumentar, feria-lhe os sentimentos. Mas aprendeu com ela a ser uma pessoa melhor. Ela ensinou-lhe a a ser mais sábio quando as coisas não iam tão bem no relacionamento. Era grato por tudo isso. Quando decidiu dizer a ela era tarde demais. Já não o escutava. Agora, tinha que conviver com a dor de nunca ter dito a ela tudo aquilo; conviver com o torpor causado pela dor de perdê-la.
- Precisas comer algo. Pai, por favor. - Pai! Gritou tão alto que assustou a senhora com cabelo engraçado e vestido vermelho da mesa ao lado. Havia momentos em que sua atividade psíquica estava reduzida a tal ponto que se sentia sentado em uma cadeira em um espaço branco, infinito, sem som, até mesmo naquele restaurante lotado. Não tinha consciência do que se passava em torno dele. - Vi um filme de David Fincher no qual o personagem principal, interpretado por aquele rapaz que fez "Seven" e "Doze Macacos", cujo nome agora não vou me lembrar, dizia: “Somos livres para fazer qualquer coisa quando perdemos tudo que temos”. Agora entendo realmente o que é perder tudo. Embora, agora, possa fazer tudo o que quiser, não tenho vontade de fazer muito. - Está falando besteira, pai. Sabia que não. Três dias depois, um derrame fatal atacou-lhe e pôs um fim ao seu sofrimento. A empregada, que o encontrou sentado na cadeira em frente à televisão na qual passava a reprise de “Ontem, hoje e amanhã”, teve a impressão de que o velho, morto, estava sorrindo.
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