terça-feira, 13 de março de 2007

Margem

Estava lá no jornal de domingo estampado em preto e branco com letras garrafais no caderno de empregos: “Precisa-se de voluntários para o Linha da Esperança. Trabalho em casa. Turnos: 12am-4am, 4am-8am.” Não estava procurando emprego. Era servidor federal e folheava o caderno por pura curiosidade. O anúncio chamou-lhe logo a atenção e resolveu candidatar-se. O impulso de ouvir problemas de pessoas em situações piores do que ele vivia agora foi irresistível. Quem utiliza esse tipo de serviço está no fundo do poço e ele estava longe de chegar lá. Não tinha problemas de saúde, nem mesmo os familiares mais próximos sofriam de alguma doença que lhe tirasse o sono. Simplesmente não estava feliz, mas não sabia direito o porquê. Talvez, não se sentisse realizado com o trabalho que estava fazendo ou com o rumo de sua vida amorosa. Sentiu, pela primeira vez, que estava envelhecendo e que precisava mudar algo em sua vida. Não procurou uma psicóloga. Não se sentia à vontade em contar suas angústias para alguém que se acha capaz de entendê-las e interpretá-las sem ao menos conhecê-lo em apenas uma hora semanal. Achou que ouvir os problemas de pessoas deprimidas iria ajudar a se sentir melhor. Saber que tem alguém em situação pior do que a dele iria ser bom. Sabia que sua intenção não estava a meio caminho de ser nobre, mas ligou para voluntariar-se. Ligou para o número indicado no anúncio. “Blackbird”, dos Beatles, começou a tocar logo após o primeiro toque do telefone. A voz de Paul certamente trazia uma sensação de calma, mas indagou se alguém entenderia a mensagem contida na letra da música.
Conseguiu o turno da meia-noite às quatro da manhã. Instalaram a linha no seu apartamento no dia seguinte. Às 11:50 da noite, posicionou a confortável poltrona ao lado do telefone, juntamente com a garrafa de Jack Daniels, o balde de gelo e os três maços de Lucky Strike e acomodou-se para esperar o primeiro louco deprimido ligar. Não teve que esperar muito: cinco minutos depois de começar o seu turno, ligou uma moça de 26 anos. Ele acendeu o primeiro cigarro e colocou a primeira dose de Jack Daniels no copo sujo. A mulher disse que estava sozinha em casa e que tinha conseguido reunir todos os remédios tarja preta que sua mãe possuía, além dos remédios para emagrecer que adquirira depois que o noivo (ex-noivo) revelou que estava perdendo o tesão por ela depois que começou a engordar demais. “Preciso que alguém me convença a não me matar.”, disse ela quando ele atendeu a ligação. Ele não soube o que responder e perguntou se ela não preferia continuar a conversa em um bar perto da sua casa. Ela concordou. Uma hora depois, a moça, que de cara não lhe atraiu fisicamente, chegou ao bar. Conversaram durante toda a madrugada até o sol derreter o toda a neve que caíra na noite anterior. Ao final, ela disse: “Você salvou a minha vida.”
Lionel agradeceu, mas sabia que a vida salva naquela noite tinha sido a dele. Foi embora e, enquanto tomava o capuccino quente comprado em uma rede de Cafés, pensou que finalmente era feliz. Mal podia esperar que o seu turno chegasse novamente.

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