quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Associação Recreativa Bico de Luz.

Em pleno sertão piauiense, um grupo de mais ou menos 30 distintos cavalheiros com idades entre 40 e 65 anos passam as tardes de sábado em uma espécie de barzinho/serviço de lavagem de veículos. O lugar não é dos mais limpos e aprazíveis. A partir das 18h, muriçocas (pernilongos) famintas saem à caça de sua dose diária de sangue, o que provoca certo incômodo aos freqüentadores do lugar. As vigas de sustentação do local são feitas de tubos de PVC preenchidas com concreto; o garçom e dono do estabelecimento faz todo o serviço de lavagem de copos, serviço de mesa e ainda comanda a churrasqueira, repleta de carnes, improvisada em uma roda de um Volkswagen qualquer. Os guardanapos, magistralmente encaixados em uma garrafa “pet” cortada no último terço e com uma abertura na lateral, são de papel higiênico. Até aí tudo bem, pois quem fabrica o papel que limpa a sua boca é a mesma empresa que faz o papel higiênico. A música, que sai dos alto-falantes de um dos carros ali estacionados, é a mesma que se ouve no interior do Brasil afora. Em pauta: piadas, discussões políticas, acirradas conversas futebolísticas, idéias mirabolantes de como enganar a patroa e chegar mais tarde em casa, as aventuras dos tempos de solteiro, profecias sobre o futuro e glórias sobre o passado.Experiência socio-antropológica de primeira. É impossível não se sentir parte da Associação mesmo tendo uma história de vida que em nada lembra as experiências contadas na mesa do bar pelos distintos senhores do sertão. Pura sabedoria nordestina perdida no interior do Piauí. Diverti-me muito e só notei que já passava das 18h quando as muriçocas começaram a alimentar-se do meu sangue. Por isso, viva a Associação Recreativa Bico de Luz.

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