quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

7C

Ao entrar no avião, reparou na moça sentada na poltrona 7C. Rosto simétrico, olhos verdes intensos, cabelo castanho, liso até o ombro magro. Imaginou o seu perfume. Nunca se sentiu tão sortudo em sentar-se na poltrona do meio. Só reparou na camiseta suja com uma mancha amarelada, a calça jeans amassada e a sandália "pedindo para ser jogada no lixo" quando foi ajeitar-se para se acomodar na 7B. O perfume era exatamente como imaginou. Combinava perfeitamente com seu cabelo, olhos e postura esguia. Olhou para a mão de dedos longos e finos. Não usava aliança. Em nenhuma das mãos. Mas algo naquela tela não parecia bem: o modo desleixado com que ela se vestia quase lhe tirava todo o encantamento.
Não se conteve. Quando os comissários de bordo davam as ridículas instruções de como proceder em caso de acidente aéreo, nos quais nada daquilo vai adiantar, perguntou:
"Como é que uma mulher tão encantadora pode se vestir desse jeito?"
Ela demorou um pouco para processar em sua mente o que aquele sujeito havia dito. Não acreditou que poderia ter ouvido aquilo.
"Acho que não entendi direito o que você disse."
Ele repetiu.
"Que ousadia! Quem você pensa que é? São seis e meia da manhã de segunda-feira e acordei...não interessa. O senhor é louco?"
"Calma. Eu só pensei que, se vamos começar um relacionamento, precisava ser sincero desde o começo."
"Agora, pronto! Louco. Relacionamento? O senhor confundiu sinceridade com ousadia."
"Oscar Wild dizia que a verdade é raramente pura e nunca simples. Esperava que você justificasse estar vestida desse jeito. Não podes me acusar de não ser verdadeiro. Isso conta muito hoje em dia, não?"
Ela sorriu e pensou que aquela "meiota" do reveillon ainda fazia efeito. Aquilo tudo era muito surreal.
"Ainda estou sem acreditar nessa conversa..."
"E seu celular? Qual é o número?"
"Você tem como anotar?"

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